sábado, 17 de janeiro de 2015

Próxima parada

Deu-me a carta para que eu a lesse,
minutos antes de sua breve despedida.
A carta não estava endereçada para mim.
Tomou-a de minhas mãos
- uma carta falha: tecnologias não são cartas –
e saltou as escadarias do ônibus, gritando
do lado de fora:
“- Vamos amar...”!
Me contive vergonhosamente
no assento desconfortável da volta para casa.
Desci no ponto seguinte e no
reduzido percurso de passos largos,
me vi pendurado na janela do ônibus
gritando em resposta:
Vamos amar.
Vamos a-mar.
Vamos ao mar.
Vamos nos desarmar.
Vamos nos desaguar.
E amemos.


Gris

Maio, 2014

Cento e três

Assentada em poesia passageira,
hora exprimida, hora dançada.
No balanço descontrolado
Desse corpo quadrado.

Ah Mirela, esse apanhado de palavras
faz-se poesia.
Na travessia das ruas povoadas
por corpos quadrados,
povoados de corpos com alma.

Sabe o quanto há de poesia
numa alma?
Imagina então o quanto de poesia
há na Rodoviária!

Ah Mirela,
esses corpos ainda não sabem,
mas o que chamam de fluxo de energia
É, na verdade, trânsito de corpos em poesia.

Gris

Março, 2014

J e G em, "Chove lá fora... e aqui dentro também"

G chora, soluça, engole e chora...
(Mesmo estando vestida de bailarina ela chorava. Como assim? Bailarinas choram? Quanta covardia... Não deveria).
Eu pergunto o porquê do choro.
J explica que G está com medo, medo da chuva.
(Ora Sr.ª Chuva, você bem que podia ser mais cautelosa, tenha mais cuidado mocinha!)
Convidei G para ir conhecer a chuva.

Chuva(ia) forte. J nos acompanhou.
Paramos diante da porta de vidro e, do outro lado, o céu se desmanchava para nós.
Apalpamos o céu. Sim, o céu.
Atravessamos pela porta e G estendeu as mãos para se lambuzar de céu.
Chuva é o céu derretido.
G e J beberam do céu. Lavaram os rostos com o céu.
E no lugar que pingavam lágrimas, agora desliza chuva.
De volta à sala, nós outra vez dançamos.

Gris

Novembro, 2012


Procura-se

Caiu. Caí.
Caia também e se permita cair.
Ca - ida. Cá e ida.
Caia na queda da ida ao tombo do tropeço
espatifado no encontro dos que caem.
Quer ida, queria ser queda ao tropeçar com a vida.
Tropeçaram indo à queda, quando da queda já estavam caídos.
Do cair tropeçaram com o distante,
esbarraram no adiante
e se perceberam estirados na queda, vestidos de horizonte.
Flutuaram nos tropeços de uma queda rasteira:
muito mais terra e ar entre o sujeito e a própria queda.
Porque, já no chão, ela ainda caía,
os olhos caíam e iam,
iam caindo por sobre o manto tecido por tantas outras quedas estendidas ao longe...
E tão perto, tão térreo, mas, cheio de ar.
O sujeito caído, vítima do tropeço na queda e, agora,
vestido de horizonte,
pairou sobre esse instante, esvaziou-se de terra e encheu-se de ar para,
ali adiante, calcar a terra com vento nos pés,
mas,
cheio de alma.
Sabia que, passado o mesmo instante,
cairia ao tropeçar consigo mesmo,
no infinito aéreo de um sujeito térreo,
à procura de alma.
Procura-se:
O Sujeito.
O Vento.
A (T)erra.
A Queda.
O (T)ropeço.
O Distante.
E a própria alma.


Gris

Junho, 2014

Na cidade do desencontro, cultura no espaço ou Espaço cultural?

Na cidade do desencontro, ou do encontro que se prefere não encontrar – moradores desencontrados, buscando, ou não, se encontrar.
Espaço Cidade de encontros e desencontros: encontro de outros espaços num mesmo espaço; encontro do eu com o desconhecido, com o improvável, com o inacreditável, com o previsível; encontro com os antepassados, com os que estão ou o que está por vir; encontro com o namorado, com o teatro, com o filme, com o pátio lotado. É desencontro com o que já foi encontrado e depois de tantos encontros pode não mais ser achado. Fica sempre para um próximo encontro, a procura do encontro desencontrado.
Por assim ser, espaço cidade cultural: “encantro desentrancado”, ou melhor, encontro desencadeado pelo cultural no espaço aqui “encontrolocado”.
É poesia. Que se varre na calçada, se pendura na parede, mas que é feita de gente todos os dias.
Bom dia! Eu posso ajudar?

Gris

Abril, 2014

J e G em, "É Segredo"

J e G conversam com o (P)rofessor:

J e G – Professor, você sabia que um menino da nossa sala gosta de nós duas?
P – Das duas, ao mesmo tempo?
J e G – Sim, de nós duas. E hoje a tarde nós vamos acertar tudo com ele.
P – Acertar o quê?
J e G – Tudo! O casamento, os filhos, a casa... Tudo.
P – Então vocês vão dividir o mesmo marido e também vão morar na mesma casa?
J e G – É. A gente já conversou. E a gente sabe que ele gosta da gente porque ele passou a mão nos nossos braços lá no parquinho, e disse assim: “Eu amo vocês!”.
P – Quer dizer que ele falou que ama vocês do fundo do coração?
J e G – Não, do fundo do coração não. Só falou que ama.
J e G – A gente também tem uma amiga lá na sala e três meninos estão gostando dela. Eles também vão se casar e morar juntos, já resolveram tudo. E hoje a tarde é a nossa conversa. A gente “tá” muito nervosa.
P – Depois quero saber de tudo.
J e G – Pode deixar que a gente te conta, mas tem quer ser escondido pra ninguém saber. É segredo.


(J e G tinham 6 anos de idade, cada)

Obs.: Acho que já não é mais...
Gris

Inquilino

Toca o telefone: dois amantes emburrados à procura do bamba parcialmente molhado.
Me fiz seco e nos colocamos à disposição da chuva e percorremos os cursos de água caída no asfalto: in(M)unda.
Submersos inspirados.
(Pausa para um gole de água de chuva engarrafada)
Eu declaro:
Mais de 70% de mim é água de chuva acumulada, granizo e pedrada, à espera de uma noite de samba, com transa, casa cheia e roda lotada.
Mais de 70% de mim implora passagem aos meus próprios olhos. E eles negam.
Mais de 70% inconformados com o pedido negado, habitam aqui.


Gris

Novembro, 2014